terça-feira, 11 de dezembro de 2007

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A Arte de Flanar*












João do Rio
Charge: J. Carlos
Revista Careta: 1910



A rua continua, matando substantivos, transformando a
significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que
inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons
futuros. (...) É preciso ter espírito vagabundo, cheio de
curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo
incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur
e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar. (...)
Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, (...) ter o
vírus da observação ligado ao da vadiagem. (...) É
vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com
inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o
desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas
necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.

Trecho de A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio.



Prezados leitores, convenhamos! Em geral estamos tão absortos em nossos deveres que nem percebemos o que ocorre por aí. Nossas excessivas preocupações dão sentido àquela estupidez de achar que o nosso umbigo é o centro do mundo. Em A alma encantadora das ruas (1910), Paulo Barreto (conhecido como João do Rio) faz a crônica boêmia da cidade do Rio de Janeiro e de seus tipos populares no final do século XIX. Trago essa obra para a contemporaneidade porque hoje em dia parecem faltar flâneurs, no nosso (aparente) pacato dia-a-dia.

Quando caminho pelas ruas de Santa Maria, o que vejo no semblante da maioria das pessoas é um olhar taciturno com a cabeça baixa, ou ainda com o olhar fixo em alguma coisa para além de onde a pessoa está, provavelmente devido a muitas preocupações e obrigações. Foi por causa disso que perdi meu velho costume interiorano de dar "bom dia" às pessoas. Cadê o nosso "espírito vagabundo"?


Minha geração (tenho 22 anos) foi criada sob ditos do tipo “come o fígado do teu próximo senão ele comerá o teu. Seja o primeiro! Porque, se você não for, não passarás de uma doméstica ou de um gari”. O engraçado é que nos pedem para sermos caridosos e solidários com o próximo, mas nos criaram individualista e materialistamente. É óbvio que esses valores não são equivocados, claro que não. A auto-suficiência não será completa se não houver independência econômica. Essa é a base para se viver nos moldes atuais. Como dizia um conhecido, "até o mais vermelho dos marxistas quer, no fundo, virar burguês". Mas isso não é a garantia para se viver bem. Acredito que o mal-entendido esteja no “viver bem”.


Entretanto, ainda há flâneurs em Santa Maria, tenho certeza. Todos aqueles senhores que têm o cabelo esbranquiçado pela geada dos anos, sempre presentes no Calçadão pelas manhãs, são um bom exemplo. Onde mais podemos encontrá-los? Suspeito que em qualquer boteco barato da cidade. Deve ser por isso que me sinto tão faceiro ao ir com meus excelentíssimos colegas de faculdade a esses recintos.


Aluno universitário, eis outra estirpe muito adepta à arte de flanar. Analisar o modo dos outros, os próprios, os acontecimentos da política nacional e internacional, os esportes, os eventos da cidade, alguns conceitos filosóficos, sociológicos e antropológicos, gibis, filmes, músicas, personalidades, explanar algo sobre as mulheres (elas são sempre uma fonte muito rica de comentários). Sobre as mulheres já dizia o glorioso Erasmo de Roterdã (1466-1536) no seu Elogio da Loucura: "Antes de tudo, têm elas o atrativo da beleza, que com razão preferem a todas as outras coisas, pois é graças a esta que exercem uma absoluta tirania mesmo sobre o mais bárbaro dos tiranos".
Enfim, com uma(s) garrafinha de cerveja um universitário torna-se um exímio representante da classe dos flâneur.


João do Rio era jornalista, e já no início do século XX percebia que essa prática de se "admirar e reparar as coisas" era fundamental para a atividade jornalística. Uma das características do jornalismo atual é a pouca disponibilidade de tempo. Como dizem por aí, a famosa deadline não perdoa! Se o tempo é tão escasso, como observar de maneira eficaz o que acontece na nossa volta?


Para finalizar, eu gostaria de dizer que doces são as tardes de um flâneur. Alguns chamam estes intrépidos varões de vagabundos, mas na verdade são esses passeios ociosos e discussões despreocupadas que permitem aos indivíduos assimilar conceitos adquiridos nos mais variados ambientes. Até os gregos sabiam que para o exercício intelectual é necessário tempo, isso há mais de dois mil anos.


E então, acompanham-me a um bar para jogar conversa fora?




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*Passear ociosamente; vadiar.

Sobre João do Rio: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_do_Rio

domingo, 9 de dezembro de 2007

30 Anos sem Clarice

Nesta semana a grande escritora Clarice Lispector nascida na Tchecoslováquia e naturalizada brasileira comemoraria 87 anos. Clarice chega ao Brasil com apenas 2 anos, aos 5 sua mãe ficou paralítica devido a uma doença e então passou a ser cuidada pela irmã mais velha Elisa e aos oito anos aprendeu a ler.

Um ano depois sua mãe morre, Clarice começa a estudar piano e hebraico e já escreve uma peça de teatro. A autora manda seus textos para o Diário de Pernambuco que os recusa. Em 1932 ingressa no Ginásio Pernambucano e em 1935 muda-se para o Rio de Janeiro. Aos 17 anos faz o curso complementar com o objetivo de mais tarde cursar direito na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.

Passando por mais uma crise financeira Clarice leciona português e matemática alem de aprender datilografia e inglês. Começa a cursar direito e a trabalhar secretaria de um escritório de Advocacia em 1939. No ano seguinte tem alguns de seus contos publicados e inicia sua carreira de jornalista na Agencia Nacional.

Escreve seu primeiro romance “Perto do Coração Selvagem” que é bem recebido pela critica, casa-se com Maury Gurgel Valente, seu colega de faculdade, e muda-se para Nápoles com ele. Na Itália lança seu segundo romance “O Lustre” em 1944 e ganha o premio Graça Aranha.

Em 1948 Clarice tem seu primeiro filho Pedro, publica seu terceiro romance “A Cidade Sitiada” e então volta ao Brasil. Dois anos depois sofre um aborto espontâneo e após mais dois anos se forma em direito e vai morar nos EUA onde tem seu segundo filho Paulo.
Aos 39 anos se divorcia e volta para o Brasil com os filhos, aos 40 publica o livro de contos “Laços de Família”, que recebe o Prêmio Jabuti, aos 41 finalmente consegue publicar seu quarto romance “A Maçã no Escuro”, que começara a escrever 9 ano antes, e aos 44 publica outro livro de contos “A Legião”.

Em 1966, enfrentado mais uma crise financeira, tendo de cuidar da saúde e educação de seus filhos Clarice adormece com um cigarro aceso que acaba por incendiar seu quarto e a deixando por dois meses internada num hospital com queimaduras por todo o corpo.

Publica então dois livros infantis “O Mistério do Coelho Pensante” em 1967 e “A Mulher que Matou os Peixes” em 1968 e então os romances “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” em 1969 e “Objeto Gritante” em 1970.

Clarice não para de publicar livros até sua morte em 1977, sua obra é reconhecida principalmente depois de seu falecimento. Analisemos então o conto Laços de Família do livro de mesmo nome.

Laços de Família trata dos sentimentos que existem dentro da família mesmo sem que esses sejam expressos. Do amor que existe independentemente de declarações, do ciúme que esse pode causar e também fala do peso do silêncio na relação da personagem Severina e seu genro que apesar de não se gostarem muito manterem uma relação perfeitamente cordial.

Confira uma entrevista com a autora no link: http://www.youtube.com/watch?v=1aF7QwPGS1Y .

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

A Descoberta da Identidade

Hoje meu post é sobre o livro “A Descoberta da América (que ainda não houve)” do escritor Eduardo Galeano. Eu já comentei sobre o autor uruguaio em um post anterior (23 de Novembro), mas, como é o fim de um ciclo, resolvi escrever sobre um livro que trata desta parte do continente que foi o tema de nossas postagens: a América Latina. O continente latino-americano é tema recorrente deste autor e este livro discute, entre outras coisas, sobre o que representa o ofício de escritor no continente – seria este trabalho capaz de provocar verdadeiras mudanças?

Galeano discorre sobre dez erros ou mentiras sobre a cultura e a literatura latino-americana. Entre os exemplos de idéias criticadas está aquela que diz que a nossa literatura é barroca porque a nossa natureza é exuberante. O autor pensa, também, no problema do acesso aos livros – num continente onde nem todos têm o que comer, quantos têm acesso à literatura?

O escritor oriental mostra nosso continente de uma forma nua e crua e lembra o quanto dos problemas de hoje são herança do período de colonização européia. O modo de vida livre e sem propriedade dos habitantes pré-colombianos são reiteradamente citados pelo autor. Ele lembra, por exemplo, que a homossexualidade era uma prática aceita em boa parte do continente e que foi duramente reprimida pelos colonizadores. Hoje, a América Latina é um continente extremamente conservador e machista.

Não conhecemos nosso continente. Lemos autores de várias partes do mundo, mas torcemos o nariz para quem escreve aqui. Imitamos modos culturais europeus e norte-americanos (estadunidenses?) e massacramos a nossa cultura, identificando-a como bárbara e atrasada. Nossa terra tem grandes problemas, e Galeano não se furta de mencioná-los nesse e em seus outros livros. Ele, porém, mostra a beleza de ser que nós temos, e é isso que me agrada tanto nele. Não consigo imaginar outro autor para comentar neste post. A América Latina é um continente que precisa ser descoberto, principalmente pelos seus. Precisamos nos olhar sem procurar enxergar a imagem do colonizador, seja o europeu de antes ou o norte-americano de hoje. Ser um latino-americano não é ser um índio, um europeu ou um africano, mas não sabemos exatamente o que é. A América continua sendo o Novo Mundo, aquele que espera para ser grande; quando, ninguém sabe. Deixar de ser a eterna promessa de bem-aventurança e ser o futuro agora depende de nós, de gostarmos e lutarmos pelo que somos. Não sei se os textos desse blog ajudam de alguma forma nessa tarefa, mas espero, sinceramente, que sim.

Para ler alguns textos sobre a América Latina, clique em http://antonioluizcosta.sites.uol.com.br/Alatina.htm
Sobre a forma com o continente é representado no jornalismo brasileiro, veja o texto http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=557
E no link http://www.latinoamericano.jor.br/ é possível ver algumas reportagens sobre a América Latina.
"Somos o que fazemos, e sobretudo o que fazemos para mudar o que somos: nossa identidade reside na ação e na luta".
Eduardo Galeano

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

LATINA, América.

Atillo, Equador, 1982. Foto de Sebastião Salgado.


Durante minha última aula de Fotojornalismo, estava folheando as páginas do livro Outras Américas, do renomado fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado. Esse livro contém fotos que expressam a extrema pobreza de algumas regiões da América Latina. São fotos marcantes, que nos fazem repensar se de fato vivemos em um mundo de tantas oportunidades, como dizem por aí. Essas fotografias são, de certa forma, uma representação visual daquilo já sustentado por autores como, por exemplo, Eduardo Galeano, no seu As Veias Abertas da América Latina. Ao ler o texto de Eduardo Galeano, nos perguntamos: "mas será que não há exagero nisto?"; as fotos de Sebastião Salgado nos permitem negar essa hipótese.


Uma inquietação surgiu nesse momento: quantos outros escritores e intelectuais já refletiram sobre a América e suas mazelas? Quantos pseudo-intelectuais e demagogos se utilizam disso esporadicamente com fins fajutos? Quantos humildes agonizam diariamente por causa disso? Obviamente seria ingenuidade tentar delimitar um número, mas uma coisa é certa, há muitos personagens - independente da época - que se enquadram nessas três categorias, provavelmente ainda mais na terceira.
.
Na Blogosfera encontrei os nostálgicos versos de Notas del Alma Indígena, do escritor peruano José Santos Chocano.

Notas del Alma Indígena**
¡Quién sabe!
Indio que asomas a la puerta
de esta tu rústica mansión: .
para mi sed no tienes agua?
para mi frío, cobertor?
¿parco maíz para mi hambre?
¿para mi sueño, mal rincón?
¿breve quietud para mi andanza?...
-¡Quién sabe, señor!
.
Indio que labras con fatiga
Tierras que de otros dueños son:
¿ignoras tú que deben tuyas
ser, por tu sangre y tu sudor?
¿ignoras tú que audaz codicia,
siglos atrás, te las quitó?
¿ignoras tú que eres el Amo?...
-¡Quién sabe, señor!
.
Indio de frente taciturna
y de pupilas sin fulgor:
¿qué pensamiento es el que escondes
en tu enigmática expresión?
¿qué es lo que buscas en tu vida?
¿qué es lo que imploras a tu Dios?
¿qué es lo que sueña tu silencio?
-¡Quién sabe, señor!
.
¡Oh raza antigua y misteriosa
de impenetrable corazón,
que sin gozar ves la alegría
y sin sufrir ves el dolor:
eres augusta como el Ande,
el grande Océano y el Sol.

Ese tu gesto que parece
como de vil resignación,
es de una sabia indiferencia
y de un orgullo sin rencor..
Corre en mis venas sangre tuya,
y, por tal sangre, si mi Dios
me interrogase qué prefiero
- cruz o laurel, espina o flor,
beso que apague mis suspiros
o hiel que colme mi canción
responderíale dudando:
-¡Quién sabe, señor!


O autor peruano nasceu em Lima, Peru. Foi grande defensor do americanismo, revolucionário ferrenho, protetor dos índios e opositor do imperialismo norte-americano. Foi preso várias vezes. Foi assassinado no Chile.
"fue un poeta peruano, conocido también con el seudónimo de El Cantor de América. En su poesía describe y representa a su país, el Perú. Es comúnmente conocido por la mayoría de peruanos y muchos escritores se refieren a él, abreviada y simplemente, como Chocano". (Extraído de José Santos Chocano)
José Santos Chocano
(1867-1935)


O autor do poema pertence a primeira classe, a dos intelectuais que refletem sobre as agonias da América; os personagens deste seu poema - os índios - à terceira. Os índios foram aqueles que, durante o processo de exploração das Américas, padeceram por causa da ganância dos portugueses e espanhóis (isso sem citar os colonizadores ingleses da América do Norte, que simplesmente dizimaram os nativos do continente*). O poema retrata o índio após o processo exploratório, fazendo referência ao semblante triste que compõe a feição do indígena latino-americano, e também às incertezas quanto ao seu futuro, da mesma forma que as fotos de Sebastião Salgado. Indio de frente taciturna /y de pupilas sin fulgor: / ¿qué pensamiento es el que escondes / en tu enigmática expresión? / ¿qué es lo que buscas en tu vida? / ¿qué es lo que imploras a tu Dios? / ¿qué es lo que sueña tu silencio? / -¡Quién sabe, señor!

Para comprovar as condições das pessoas que o poema de José Santos Chocano defende, não é necessário irmos muito longe, nem lermos autores com citações ameaçadoras como Eduardo Galeano ou ver fotos consagradas como as de Sebastião Salgado. Até aqui no calçadão de Santa Maria é fácil observarmos pessoas desgarradas com modos taciturnos, sem muitas expectativas em relação ao porvir.
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Para finalizar, eu gostaria de citar um dos elementos mais interessantes de se consumir literatura latino-americana: é uma forma de conhecermos a nossa gente, as nossas origens. Graças às misturas do nosso sopão, tem sido possível conhecer realidades aparentemente novas. "Aparentemente" porque percebemos que, no fundo, essas realidades "estranhas" são tão similares a nossa a ponto de afirmarmos que brasileiros, peruanos, argentinos, paraguaios, uruguaios, dominicanos, mexicanos e outros, compõem todos um só corpo e uma só alma.
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Observações: a foto de Sebastião Salgado foi retirada de seu site oficial.
*Para saber um pouco mais sobre a colonização norte-americana, e o massacre dos índios de lá, leiam Enterrem Meu Coração na Curva do Rio, de Dee Brown.
**O poema foi retirado do site PoesiaLatinoamericana, que consta na lista de sites sugeridos por este blog.