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segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

A Arte de Flanar*












João do Rio
Charge: J. Carlos
Revista Careta: 1910



A rua continua, matando substantivos, transformando a
significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que
inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons
futuros. (...) É preciso ter espírito vagabundo, cheio de
curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo
incompreensível, é preciso ser aquele que chamamos flâneur
e praticar o mais interessante dos esportes - a arte de flanar. (...)
Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, (...) ter o
vírus da observação ligado ao da vadiagem. (...) É
vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com
inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o
desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas
necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas.

Trecho de A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio.



Prezados leitores, convenhamos! Em geral estamos tão absortos em nossos deveres que nem percebemos o que ocorre por aí. Nossas excessivas preocupações dão sentido àquela estupidez de achar que o nosso umbigo é o centro do mundo. Em A alma encantadora das ruas (1910), Paulo Barreto (conhecido como João do Rio) faz a crônica boêmia da cidade do Rio de Janeiro e de seus tipos populares no final do século XIX. Trago essa obra para a contemporaneidade porque hoje em dia parecem faltar flâneurs, no nosso (aparente) pacato dia-a-dia.

Quando caminho pelas ruas de Santa Maria, o que vejo no semblante da maioria das pessoas é um olhar taciturno com a cabeça baixa, ou ainda com o olhar fixo em alguma coisa para além de onde a pessoa está, provavelmente devido a muitas preocupações e obrigações. Foi por causa disso que perdi meu velho costume interiorano de dar "bom dia" às pessoas. Cadê o nosso "espírito vagabundo"?


Minha geração (tenho 22 anos) foi criada sob ditos do tipo “come o fígado do teu próximo senão ele comerá o teu. Seja o primeiro! Porque, se você não for, não passarás de uma doméstica ou de um gari”. O engraçado é que nos pedem para sermos caridosos e solidários com o próximo, mas nos criaram individualista e materialistamente. É óbvio que esses valores não são equivocados, claro que não. A auto-suficiência não será completa se não houver independência econômica. Essa é a base para se viver nos moldes atuais. Como dizia um conhecido, "até o mais vermelho dos marxistas quer, no fundo, virar burguês". Mas isso não é a garantia para se viver bem. Acredito que o mal-entendido esteja no “viver bem”.


Entretanto, ainda há flâneurs em Santa Maria, tenho certeza. Todos aqueles senhores que têm o cabelo esbranquiçado pela geada dos anos, sempre presentes no Calçadão pelas manhãs, são um bom exemplo. Onde mais podemos encontrá-los? Suspeito que em qualquer boteco barato da cidade. Deve ser por isso que me sinto tão faceiro ao ir com meus excelentíssimos colegas de faculdade a esses recintos.


Aluno universitário, eis outra estirpe muito adepta à arte de flanar. Analisar o modo dos outros, os próprios, os acontecimentos da política nacional e internacional, os esportes, os eventos da cidade, alguns conceitos filosóficos, sociológicos e antropológicos, gibis, filmes, músicas, personalidades, explanar algo sobre as mulheres (elas são sempre uma fonte muito rica de comentários). Sobre as mulheres já dizia o glorioso Erasmo de Roterdã (1466-1536) no seu Elogio da Loucura: "Antes de tudo, têm elas o atrativo da beleza, que com razão preferem a todas as outras coisas, pois é graças a esta que exercem uma absoluta tirania mesmo sobre o mais bárbaro dos tiranos".
Enfim, com uma(s) garrafinha de cerveja um universitário torna-se um exímio representante da classe dos flâneur.


João do Rio era jornalista, e já no início do século XX percebia que essa prática de se "admirar e reparar as coisas" era fundamental para a atividade jornalística. Uma das características do jornalismo atual é a pouca disponibilidade de tempo. Como dizem por aí, a famosa deadline não perdoa! Se o tempo é tão escasso, como observar de maneira eficaz o que acontece na nossa volta?


Para finalizar, eu gostaria de dizer que doces são as tardes de um flâneur. Alguns chamam estes intrépidos varões de vagabundos, mas na verdade são esses passeios ociosos e discussões despreocupadas que permitem aos indivíduos assimilar conceitos adquiridos nos mais variados ambientes. Até os gregos sabiam que para o exercício intelectual é necessário tempo, isso há mais de dois mil anos.


E então, acompanham-me a um bar para jogar conversa fora?




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*Passear ociosamente; vadiar.

Sobre João do Rio: http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_do_Rio

domingo, 9 de dezembro de 2007

30 Anos sem Clarice

Nesta semana a grande escritora Clarice Lispector nascida na Tchecoslováquia e naturalizada brasileira comemoraria 87 anos. Clarice chega ao Brasil com apenas 2 anos, aos 5 sua mãe ficou paralítica devido a uma doença e então passou a ser cuidada pela irmã mais velha Elisa e aos oito anos aprendeu a ler.

Um ano depois sua mãe morre, Clarice começa a estudar piano e hebraico e já escreve uma peça de teatro. A autora manda seus textos para o Diário de Pernambuco que os recusa. Em 1932 ingressa no Ginásio Pernambucano e em 1935 muda-se para o Rio de Janeiro. Aos 17 anos faz o curso complementar com o objetivo de mais tarde cursar direito na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil.

Passando por mais uma crise financeira Clarice leciona português e matemática alem de aprender datilografia e inglês. Começa a cursar direito e a trabalhar secretaria de um escritório de Advocacia em 1939. No ano seguinte tem alguns de seus contos publicados e inicia sua carreira de jornalista na Agencia Nacional.

Escreve seu primeiro romance “Perto do Coração Selvagem” que é bem recebido pela critica, casa-se com Maury Gurgel Valente, seu colega de faculdade, e muda-se para Nápoles com ele. Na Itália lança seu segundo romance “O Lustre” em 1944 e ganha o premio Graça Aranha.

Em 1948 Clarice tem seu primeiro filho Pedro, publica seu terceiro romance “A Cidade Sitiada” e então volta ao Brasil. Dois anos depois sofre um aborto espontâneo e após mais dois anos se forma em direito e vai morar nos EUA onde tem seu segundo filho Paulo.
Aos 39 anos se divorcia e volta para o Brasil com os filhos, aos 40 publica o livro de contos “Laços de Família”, que recebe o Prêmio Jabuti, aos 41 finalmente consegue publicar seu quarto romance “A Maçã no Escuro”, que começara a escrever 9 ano antes, e aos 44 publica outro livro de contos “A Legião”.

Em 1966, enfrentado mais uma crise financeira, tendo de cuidar da saúde e educação de seus filhos Clarice adormece com um cigarro aceso que acaba por incendiar seu quarto e a deixando por dois meses internada num hospital com queimaduras por todo o corpo.

Publica então dois livros infantis “O Mistério do Coelho Pensante” em 1967 e “A Mulher que Matou os Peixes” em 1968 e então os romances “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres” em 1969 e “Objeto Gritante” em 1970.

Clarice não para de publicar livros até sua morte em 1977, sua obra é reconhecida principalmente depois de seu falecimento. Analisemos então o conto Laços de Família do livro de mesmo nome.

Laços de Família trata dos sentimentos que existem dentro da família mesmo sem que esses sejam expressos. Do amor que existe independentemente de declarações, do ciúme que esse pode causar e também fala do peso do silêncio na relação da personagem Severina e seu genro que apesar de não se gostarem muito manterem uma relação perfeitamente cordial.

Confira uma entrevista com a autora no link: http://www.youtube.com/watch?v=1aF7QwPGS1Y .

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

A Última Crônica

Fernando Tavares Sabino, mineiro de Belo Horizonte nasceu em 12 de outubro de 1923. Desde criança gosta de música e de ler, teve sua primeira obra publicada “Agus”, um romance policial, pela iniciativa de seu irmão Gerson pouco tempo depois contribui para a formação do jornal “A Inúbia”.


Ao final do curso no Ginásio Mineiro Fernando ganha a medalha de ouro de melhor aluno da classe, e a partir daí tem seus textos publicados regularmente pelas revistas: “Belo Horizonte” e “Alterosas”, e vence também vario concursos de crônicas e contos sobre rádio.


Disputou também vários campeonatos de natação e em muitos deles foi o vencedor. Ficou em segundo lugar na Maratona Nacional de Português e Gramática Histórica, perdendo apenas para Hélio Pellegrino, seu ex-colega de ginásio. Em resumo, sempre foi um aluno Brilhante.


Dos 18 aos 21 anos presta serviço militar a Arma de Cavalaria do CPOR. Então inicia o a faculdade de direito e ingressa no jornalismo como editor da “Folha de Minas” e tem seu primeiro livro lançado “Os Grilos não Cantam Mais”, que é muito bem recebido pela crítica.


Em 1942 foi funcionário da secretaria de finanças de Minas Gerais e leciona Português no Instituto Padre Machado. Em 1943 é nomeado oficial do gabinete do secretário da agricultura e faz um estágio no Quartel de Cavalaria de Juiz de fora.


Quatro anos depois se forma em Direito e se muda para o Estados Unidos onde trabalha no Escritório Comercial do Brasil e depois no Consulado Brasileiro e mais quatro anos depois, já de volta ao Brasil, reúne vários de seus textos escritos nos Estados Unidos e publica no livro “A Cidade Vazia”


Em 1956 publica o romance “O encontro Marcado”, que foi um grande sucesso e parte a viver apenas de suas criações literárias. Também cria roteiros e textos documentários para varias empresas brasileiras.


Ganha o prêmio Cinaglia do Pen Club pelo livro “A Mulher do Vizinho” Em 1966 cobre a Copa do Mundo de futebol para o “Jornal do Brasil” e daí em diante não para mais de viajar e publicar contos, crônicas e livros pelo mundo inteiro.


Bom, vamos então ao que mais nos interessa “A Última crônica”. Basicamente esta crônica nos mostra que para sermos felizes devemos perceber cada pequeno detalhe do que acontece ao nosso redor e valorizar cada momento de alegria que temos. Para vivenciar mais um desses momentos acesse http://www.releituras.com/i_samuel_fsabino.asp .

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Cabeça de Bagre Histórias do futebol

Ciro Knackfuss, nascido em Santa Maria da Boca do Monte em 15 de Abril de 1952, é doutor em Educação Física e professor titular do Centro de Educação Física e Desportos da UFSM. Segundo ele mesmo, um "Cabeça-de-Bagre" (jogador de futebol com habilidades não acima da média) apaixonado por futebol que "até hoje, faça chuva ou faça sol, corre atrás da bola nos campeonatos de veteranos da cidade universitária".
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Na noite de ontem, quarta-feira, lançou o livro "Cabeça-de-Bagre histórias do futebol". As 23 crônicas da obra, com um toque de humor-pitoresco, trazem um pouco da história do futebol de Santa Maria. Algumas delas foram inclusive publicadas na revista "Garganta do Diabo", da década de 90.
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O livro apresenta histórias presenciadas pelo próprio autor, assim como narrativas curiosas sobre futebol que Ciro ouviu dos amigos. Algumas das suas experiências inusitadas no futebol amador e profissional estão presentes na obra.
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Quando jogava no poderoso "Mustangue do Marqueto", "campeoníssima agremiação de veteranos fundada em 1986", Ciro foi o protagonista de uma das mais divertidas crônicas do "Cabeça-de-Bagre". O time chegara a mais uma decisão, dessa vez contra o "Grêmio Atlético Imembuí".
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Antes de a bola rolar, Ciro aproximou-se do árbitro Carlos Gilberto Bertagnolli, o "Polenta", e sussurrou-lhe a seguinte frase: "Polenta, vou cair na área." O árbitro, então, olhou imediatamente para ele e disparou: "Azar é teu, vai te sujar todo."
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"Polenta" e as demais crônicas formam um conjunto de histórias divertidas, críticas e irresistíveis; mesmo para aqueles que não viveram aquele que é tido como o mais belo período do futebol brasileiro. Entre a primeira e a última crônica são muitas risadas e um único espaço de tempo.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A Velhinha de Taubaté

Não se sabe, exatamente, o seu endereço, mas tudo indica que seja em Taubaté. Outros detalhes - nome, estado civil, CIC - são desconhecidos. Sabe-se apenas que é uma velhinha, que mora em Taubaté e que passa boa parte do seu tempo numa cadeira de balanço assistindo ao Brasil pela televisão.




Alguém aí já ouviu falar na Velhinha de Taubaté? É mais um dos cômicos personagens criados por Luís Fernando Veríssimo. Em um país de incrédulos quanto ao futuro da nação, a Velhinha de Taubaté é o último bastião da credulidade nacional! Ninguém acredita em mais nada nem em ninguém no país.

Famosa por ser "a última pessoa no Brasil que ainda acreditava no governo", Veríssimo contava que, tudo que acontecia de aparentemente sério no país era, na verdade, uma grande encenação para a velhinha de Taubaté.

"Acreditava" porque em 25 de agosto de 2005, a velhinha teve o seu falecimento anunciado pelo seu criador, na crônica intitulada Velhinha de Taubaté (1915-2005). Ela teria morrido em frente à TV, decepcionada com o quadro político brasileiro, em especial com o seu ídolo, Antonio Palocci: Ela morreu na frente da televisão, talvez com o choque de alguma notícia. Mas a polícia mandou os restos do chá que a Velhinha estava tomando com bolinhos de polvilho para exame de laboratório. Pode ter sido suicídio.


Na comunidade de informação existe um código para a velhinha de Taubaté - VT, ou "jibóia", já que ela engole tudo - e é pensando nela que são preparados os comunicados oficiais para ó público externo. (...) De vez em quando acontece alguma coisa que faz a velhinha de Taubaté ficar tesa na sua cadeira de balanço e dizer: "Epa". Outro atentado de direita, por exemplo. Mas logo uma autoridade anuncia que haverá um "rigoroso inquérito e a velhinha de Taubaté descansa. Tudo se esclarecerá.



Para quem quer dar umas boas gargalhadas, a Velhinha de Taubaté é excepcional. De qualquer forma, o mais engraçado (ou estranho) de toda a história é verificarmos que existem várias Velhinhas de Taubaté por aí.
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Sites relacionados:

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Ode aos Desgarrados

A estrada da vida pode ser longa e áspera. Faça-a mais suave, caminhando e cantando com as mãos cheias de sementes.
(Cora Coralina)



O poeta Galdino Barreto nasceu em Quaraí, RS, em 1976. Começou na poesia divulgando versos de sua autoria em um dos jornais da cidade, publicando posteriormente os livros Um Poeta e Seus Messenas (1998), O Quilombo Contemporâneo (2003), As Dores do Vento (2005), uma antologia de obras de poetas quaraienses chamada A Nova Antologia da Poesia Quaraiense (2006) e Breu, o lado escuro de um poema (2007). Amante das letras e possuidor de sensibilidade aguçada, Galdino Barreto está despontando como um dos futuros grandes nomes da poesia – não só quaraiense, mas também gaúcha.

A poesia de Galdino, como bem destaca a Mestre em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria, Idene Mariano Godois, no prefácio de Breu, o lado escuro de um poema, “escreve aquilo que gostaríamos de dizer, (...) acorda em nós um ser há muito tempo adormecido”. Isso porque sua poesia trabalha temas cotidianos. Obviamente que cotidiano não simboliza banal; ao contrário, cotidiano na poesia de Galdino Barreto denota aquilo que presenciamos, aquilo que nos toca de alguma forma, mas temos dificuldade ao verbalizar. O poeta expressa essas inquietações em forma de verso, com uma linguagem simples e não rebuscada.

Dentre os cinqüenta e seis poemas contidos no livro Breu, o lado escuro de um poema, selecionei Meta... de Sul.

A tristeza impera
Um vazio corrompe o sorriso amarelo
Um movimento morto provoca o riso em noite silenciosa
Já me acostumei com a tua falência
Com a tua face verde em dias de chuva
Quanta terra mal aproveitada...
Peleia Pai!
Chora mãe!

Vem progresso!
Vem depressa
Ainda cremos no amanhã
Acorda interior... Do interior do teu sono passado
Acorda... Um cego te chama
Um surdo te ama... Te escuta
Falta pão, saneamento, infra-estrutura
Lenços...
Creme anti-rugas

Que as esquinas reconheçam
Tua virtude prudente
Teu solo fértil...
Ter não é te ter por metade
O vento fuga em infinito farto...
Rodoviárias...

Irmãos em retirada...
Mas vamos mudar o futuro em breve
Mudar votando
Sem pecar em carne fraca
Nossos anjos convoco agora
Por muitos... Enfim... Nós queremos
Dignidade da boca
Uma voz que mesmo rouca
Fale...
Lute...
Grite por nós...


A inquietude pelo progresso é o tema central deste poema. É por isso que a poesia de Galdino Barreto ultrapassa as fronteiras de Quaraí. Os versos de Meta... do Sul operam como um espelho da realidade de muitos municípios gaúchos (quiçá também do resto do país), principalmente dos de interior, que têm seus filhos arrancados de si por não propiciarem condições de sustentabilidade e perspectiva de futuro. Essas localidades vêem seus jovens aventurando-se em outras cidades em busca de estudo ou trabalho. O pior de tudo é a tristeza de saber que provavelmente esses cidadãos desgarrados não mais voltarão.

Santa Maria, apesar de não ter tanto problema com o êxodo de cidadãos, também enfrenta o “dilema do progresso”. Cidade cultura? Grande cidade ou urbe interiorana com aspecto de metrópole? Não se ter fundamentos claros e distintos para analisar esses problemas é incomodativo. O poema de Galdino Barreto traz à tona essas questões:
“Quanta terra mal aproveitada... / Peleia Pai! / Chora mãe! / Vem progresso! / Vem depressa / Ainda cremos no amanhã” (2007, p. 37)

Por fim, diferentemente de outros escritores gaúchos que exaltam as glórias e façanhas de gaúchos de outrora, Galdino Barreto – no poema Meta... do Sul - segue, de certa forma, a linha de Cyro Martins, optando pelos “desvalidos do pampa” como personagens da sua poesia. O poema é uma espécie de Tropa Amarga (do também quaraiense Luiz Menezes) adaptada para os dilemas do novo milênio, destinada a nós, pequenos desgarrados em busca de um futuro melhor.


Ainda cremos no interior / Acorda interior... Do interior do teu sono passado / Acorda... Um cego te chama / Um surdo te ama... Te escuta (2007, p.37)

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Quando perdemos a inocência...

O livro "Ópera de Sabão" de Marcos Rey narra a história de uma família paulistana no dia do suicídio de Vargas. Assim como acontece no país, a vida da família vira de cabeça para baixo. Inspirado nas soap opera da Era do Rádio, o livro é “bem amarradinho”. A história dos integrantes da família Manfredi é cheia de idas e vindas e coincidências propícias para o conflito das personagens. Dividido em duas partes, o livro começa no ano de 1954 e depois dá um salto de quinze anos no tempo. A trajetória dos integrantes da família permite perceber as mudanças que estavam acontecendo no país naquela época.

A primeira parte da história é engraçada, flui doce e romântica, lembrando um país de muitos anos atrás. A segunda parte tem um clima diferente, triste. No enterro do patriarca é possível saber o que houve com as personagens e um clima de nostalgia e perda da inocência pode ser percebido. O voluntarioso pai, que não aceitava o casamento da filha com o homem mais velho e rico, decide não dar mais opiniões quando começa a receber uma pensão do genro. A mãe, uma defensora da moral e da luta contra o aborto, abandona seus ideais para “resolver o problema” do filho que engravidou a namorada.

É possível fazer um paralelo com as mudanças culturais e a vida política do Brasil. Os filhos mais novos sacrificam o amor por “bons casamentos” e não se importam com os problemas do país, já que o Brasil vive o Milagre Econômico e todos estão ganhando muito dinheiro com isso – uma atitude semelhante à dos pais, citada acima, que trocaram os ideais e o direito de falar o que pensavam por vantagens. Em contrapartida, o filho mais velho decide lutar contra a Ditadura e recusa o dinheiro e as vantagens que o cunhado – o poder corruptor – oferece e se torna um foragido.

De certa forma, os personagens são uma representação de boa parte do povo brasileiro, que apoiou ou simplesmente se omitiu enquanto regime ditatorial ofereceu vantagens econômicas. As escolhas que eles fizeram mostram as mudanças no comportamento cultural do país, que se tornava industrial, moderno e menos inocente.
http://www.marcosrey.com.br/home.htm é o endereço do sítio do autor na internet e no link
http://www.canaldaimprensa.com.br/canalant/midia/dnov/midia1.htm é possível saber como nasceram as soap operas.
Para ler uma breve biografia do autor, procure em
http://www.teledramaturgia.com.br/marcosrey.htm

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Missa do Galo

Escrito em 1895, durante a maior fase do cronista Machado de Assis, "Missa do Galo" é talvez seu conto que mais fascínio desperta entre seus leitores e críticos. Em vez de um enredo repleto de lances e movimentos, o conto traz uma narrativa psicológica bastante intensa. O leitor tem a possibilidade de ir muito além daquilo que é aparentemente narrado.

O conto é centrado em uma quase história de amor entre Nogueira, de apenas dezessete anos, e uma mulher de trinta anos, Conceição. Ela é casada com Menezes, escrivão, e Nogueira vive na casa deles devido ao parentesco com a primeira esposa do escrivão.

Na noite de Natal, o jovem está lendo, na sala da frente, enquanto espera por um amigo com quem iria à Missa do Galo. Nogueira, completamente envolvido na leitura, nem percebe a chegada de Conceição. Os dois iniciam, então, uma conversa carregada de insinuações.

Mais velha e experiente, cansada da constante ausência do marido, ela parece querer conquistar o rapaz. As expressões faciais e corporais expressando sensualidade que acompanham suas falas demonstram suas pretensões. Porém, as atitudes ficam apenas no âmbito das tentativas, marcadas por avanços e recuos, que constituem o clima da história.

Nogueira, tímido e bem mais jovem, tem o seu primeiro encantamento amoroso. A medida que a conversa avança, ele vai se envolvendo naquele clima de sedução. Contudo, após uma hora de conversa, chega o amigo que lhe fará companhia na ida à Missa do Galo, quebrando o encanto e impedindo a concretização do romance.

Por ser narrado em primeira pessoa, o leitor conhece apenas a impressão que Nogueira tem do fato. Não há como afirmar se Conceição realmente está inserida no mesmo clima de sedução percebido por ele. Para Nogueira, no entanto, a noite foi profundamente marcante.

O portal "Domínio Público" disponibiliza o download do conto na íntegra:



terça-feira, 6 de novembro de 2007

Mineiro de Juiz de Fora José Rubem Fonseca (11/05/1925), escritor e roteirista de cinema é formado em direito, e foi como comissário, na polícia, que começou sua carreira. Não trabalhou em campo por muito tempo e cuidou do departamento de relações públicas até ser exonerado. Foi estudar na New York University administração de empresas e exerceu tal função na Light. José Rubem também se especializou em psicologia na Escola de Polícia e lecionou na Fundação Getúlio Vargas.

Pai de três filhos e viúvo, hoje se dedica exclusivamente a literatura. Preferindo o anonimato é descrito por amigos e familiares como uma pessoa simples afável e de ótimo humor. José Rubem foi muito influenciado, pelos anos dedicados a polícia. Muitos fatos de sua vida são relatados em seus textos que tratam da violência urbana mostrando por diferentes ângulos as mazelas da sociedade e o grande abismo entre as classes alta e baixa. Seus livros foram lançados tanto no Brasil como no exterior e fez muito sucesso tanto entre os leitores quanto à crítica.

Ganhador por cinco vezes do Prêmio Jabuti, (1970, 1984, 1993, 1996 e 2003); também recebeu o Prêmio Luis de Camões, pelo conjunto de sua obra; Coruja de ouro, roteiro Relatório de um homem casado; Kikito de ouro do Festival de Gramado, roteiro de Stelinha e Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, roteiro de A grande arte.

O conto a ser analisado é “Feliz Ano novo”. Recomendado apenas para os de estômago forte, tem uma linguagem seca e direta. Narra um assalto de três ladrões sem escrúpulos algum a uma “casa bacana que ta dando festa”. Surpreendente ,não é algo que se lê em qualquer lugar.

Para conferir este e vários outros contos além de entrevistas e até partes dos filmes de José Rubem Fonseca acesse http://portalliteral.terra.com.br/rubem_fonseca/index.htm.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Piedra Sola

Cena de Netto Perde sua Alma, filme de Tabajara Ruas e Beto Souza

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O pampa gaúcho[1] foi palco de gloriosas batalhas e angustiantes derrotas. Foi o local onde nossos antepassados forjaram sua identidade pranchando adagas em vastas extensões de campo. Esses cruentos conflitos perpassaram séculos e deram origem a diferentes nações (Uruguai, Argentina, Paraguai, sul do Brasil). O massacre dos nativos, o estabelecimento e a caída do vice-reino do Rio da Prata[2], a Guerra da Cisplatina[3] e a independência do Uruguai, a Revolução Farroupilha, as guerras de fronteira, enfim, o pampa foi cenário desses e de outros acontecimentos. Ainda nesses locais, imigrantes de diferentes pátrias estabeleceram colônias, pondo em prática a eterna busca pela felicidade. Nossas cidades - inclusive Santa Maria - e nossa gente são conseqüência das ações desses tempos remotos. Guerras e calmarias, farturas e misérias, suor e sangue – eis o pampa.

Trecho de Tropa Amarga,
De Luiz Menezes

No êxodo triste
Os olhares são preces
Num cântico bárbaro;
Perduram só lendas
Oriundas de glórias
De há muito sepultas.
Olhai essa tropa
Senhores de terra
De nomes ilustres,
E vejam o abismo
Cavado na senda
Por forças ocultas...

Penetrem no rancho
Senhores de terra
De nomes ilustres,
E vejam o Pampa
Aquecendo tristezas
Num fogo de chão...
E ouçam o ronco
De cuia de mate
Gritando revolta,
Da terra que amamos
Do amor que é fartura
Do trigo que é pão.
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Por esses e por outros motivos que a llanura pampena tornou-se objeto da literatura. Personagens como Martín Fierro, de José Hernandez; Pablo Luna, de Eduardo Acevedo Díaz; e Blau Nunes, de João Simões Lopes Neto, são algumas das muitas figuras criadas que retratam algumas características do pampa e das pessoas que o habitam.

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Escrevi esse intróito sobre o pampa para tentar contextualizar o cenário da obra que será abordada neste post: Netto Perde a Sua Alma, de Tabajara Ruas. A história é uma ficção sobre o general farroupilha Antônio de Souza Netto[4]. Apesar disso, o livro mescla no enredo datas e acontecimentos reais.

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Tabajara Ruas é escritor e cineasta gaúcho, nasceu em Uruguaiana, no dia 11 de agosto de 1942. É autor das obras O Amor de Pedro por João, A Região Submersa, Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez, dentre outras. Em 1999, co-redigiu com Beto Souza, roteirizou e produziu o longa-metragem Netto Perde a Sua Alma, baseado em seu livro de mesmo nome.

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A história começa no dia 1o de julho de 1866, no Hospital Militar de Corrientes, República Argentina, para onde o general Antônio de Souza Netto foi levado após ser ferido na batalha de Tuiuti, no segundo ano da Guerra do Paraguai (1864-1870). Ali percebe coisas estranhas acontecendo com outros pacientes ao seu redor. Numa noite, recebe a visita de um antigo companheiro, sargento Caldeira, ex-escravo. Juntos rememoram o passado comum durante a Revolução Farroupilha (1835-1845). Eis uma passagem:

- O conselheiro recebeu uma carta do capitão Garibaldi.
- Oigaletê! Uma carta do corsário! Então ele ainda está vivo.
- Bem vivo e campeante. É uma carta da Itália. Parece que hoje ele é general. (...) Pergunta pelos companheiros da Revolução de 35.(...)
- O conselheiro Domingos teve a bondade de copiar trechos da carta do capitão Garibaldi, general, e pediu que se fosse possível, que eu le mostrasse.
- Leia no más.
O sargento Caldeira empostou a voz:
- “Eu vi batalhas mais disputadas, mas nunca vi em nenhuma parte homens mais valentes nem cavaleiros mais brilhantes que os da cavalaria rio-grandense, em cujas fileiras comecei a desprezar o perigo e a combater dignamente pela causa sagrada das gentes”
Netto Aprovou com a cabeça.



Netto acredita que o médico do hospital de Corrientes, o tenente-coronel Philippe Fointainebleux era um “francês pedante, falso no sorriso e brutal no tratamento com os inferiores” (2001, p.14). Deduziu isso a partir do procedimento do médico junto ao capitão de los Santos – um de seus companheiros de quarto - que teve suas pernas amputadas. De acordo com Netto, Fointainebleux fez isso por não gostar do capitão de los Santos.

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Na seqüência do livro, no hospital, o general Netto e o sargento Caldeira lembram ainda do jovem escravo Milonga, que se alista no Corpo de Lanceiros Negros, sob o comando de Caldeira. O personagem “Milonga” é muito interessante no decorrer da narrativa, pois é ele quem representa os anseios dos escravos que lutaram na Guerra dos Farrapos, e também da revolta dos soldados negros após a guerra.

Vilarejo de Poncho Verde, município de Dom Pedrito, Província de São Pedro do Rio Grande, 2 de março de 1845.

Viram um cavaleiro carregando uma lança se aproximar num galope urgente, levantando uma poeira rosada. O cavaleiro entrou no acampamento investindo sobre a soldadesca que precisou saltar para os lados para não ser atropelada, avançou até diante da tenda de Netto e estacou o cavalo a cinco metros dele.
Milonga era o cavaleiro. Ergueu a lança e atirou-a na direção de Netto. A lança cravou no chão, entre as botas de Netto, e ali ficou balançando.
- General mentiroso!
Netto sentiu uma dor súbita e estranha
- Vim pra le matar, general.
Osório levou a mão à culatra da pistola. Netto segurou seu braço. Olhou para o rapaz que um dia salvara sua vida. Tirou o palheiro da boca.
- Há quanto tempo, amigo Milonga.
- Eu não tenho amigos!
A mão esquerda de Milonga desceu até o coldre. Vários oficiais acorreram, mas Netto tornou a fazer o gesto. (...)
- A guerra terminou, Milonga.
- A guerra terminou e eu continuo escravo.
- Para mim tu não és escravo, Milonga.
- General, onde está a República que vosmecê proclamou?
- Ela não existe mais, Milonga.
- Vosmecê mentiu para nós.
- Não, Milonga, eu não menti. Apenas perdi a guerra. (2001, p.101-102)


São várias histórias, encontros trágicos, amigos e inimigos, amores e desafetos. Netto recorda o exílio em Piedra Sola, Uruguai, depois da derrota dos farroupilhas; o convívio com os fantasmas do passado; a descoberta do amor, com a uruguaia Maria Escayola e a Guerra do Paraguai. Naquela noite, no hospital, unidos por duras lembranças, revelações surpreendentes e um terrível segredo, os dois veteranos enfrentam o que parece ser o derradeiro desafio, que é assassinar o tenente-coronel Philippe Fointainebleux. Mas será que é só isso? Não.

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Parece tudo muito simples, só que o final do livro reserva surpresas. Obviamente que não serei eu a dizer quais são, senão perde a graça! Há certos detalhes no meio das recordações que permitem pensar no final, só que na primeira leitura do livro esses detalhes passam desapercebidos e são tidos como insignificantes (pelo menos foi a minha impressão na primeira vez que li o livro); mas não são.

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Quando se viaja para a região pampiana em noites de inverno, observam-se campos que se perdem no horizonte, aparentemente desolados e despovoados, iluminados unicamente pela luz da lua e preenchidos por um minuano (vento) cortante que às vezes sopra tão forte pelo descampado que chega a parecer vozes de personagens de noites antigas, o que causa um sentimento de angústia. Em geral nem ao menos pensamos no que deve ter ocorrido nesses locais em épocas passadas. Netto Perde sua Alma traz à tona eventos sucedidos nestas mesmas terras há mais de um século e meio. Quando adquirimos consciência que sabemos tão pouco sobre os lugares que chamamos de ‘casa’, sentimos uma profunda nostalgia. É esse sentimento que estou sentindo agora, enquanto termino de escrever.
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[1] http://es.wikipedia.org/wiki/Pampa_%28Sudam%C3%A9rica%29
[2] http://es.wikipedia.org/wiki/Virreinato_del_R%C3%ADo_de_la_Plata
[3] http://es.wikipedia.org/wiki/Cisplatina
[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B4nio_de_Sousa_Netto

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Testemunho

O escritor e jornalista Eric Nepomuceno é conhecido por traduzir os principais autores contemporâneos da literatura hispânica. Amante da cultura latino-americana, ele atuou por vários anos como correspondente de jornais brasileiros no exterior. É desse período que nasceu o livro “Caderno de notas: um repórter na América Latina”, que foi reeditado alguns anos depois com novos textos. Foi essa segunda edição que eu “descobri” por acaso, hoje, na biblioteca. Desisti do livro que eu iria comentar e li “Caderno de notas” de uma vez só. Não me arrependi: o livro é muito bom.

O livro foi organizado com textos que tinham sidos alterados ou não publicados por motivos políticos e anotações, daquelas que os repórteres fazem para serem utilizadas um dia. Escrito com uma linguagem coloquial, o texto se aproxima muito mais da oralidade do que da gramática, é como estar ouvindo a história de uma testemunha que conta tudo o que viu, ouviu e sentiu. Nepomuceno nos conta, por exemplo, o dia em que a Argentina chorou a morte do general Perón, um relato impressionante que causa arrepios mesmo em quem não era nascido naquela época. Também narra momentos importantes da história recente do continente, que muitas vezes desconhecemos, como algumas atrocidades das ditaduras que abalaram vários países da região e a dura situação dos mineiros bolivianos.

O autor mostra, ainda, a vida na Nicarágua durante o ataque dos Contras e o embargo econômico ao país, além de contar a história do Canal do Panamá – e a esperança do país em conseguir a soberania de volta. No fim, um texto em homenagem ao amigo Julio Cortázar e uma entrevista com o escritor mexicano Juan Rulfo, na qual o autor de Pedro Páramo explica porque parou de publicar seus textos. Nepomuceno abre seu caderno de notas para mostrar o que presenciou como jornalista. Seu livro lembra momentos históricos que teimamos em esquecer ou não nos interessamos em conhecer.



É possível ler alguns textos de Nepomuceno na internet, é só clicar em:

http://paginas.terra.com.br/arte/dubitoergosum/arquivo85.htm
http://www.jobim.com.br/colab/ericnepo/eric.html
http://jbonline.terra.com.br/jb/papel/cadernob/2005/12/05/jorcab20051205012.html
Para saber mais sobre seu livro “O Massacre” que narra o massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará em 1996, clique no link: http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/EdicaoNoticiaIntegra.asp?id_artigo=734

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A Cartomante

Descendente de escravos alforriados, Machado de Assis, 1839, é considerado um dos mais importantes escritores brasileiros. Autodidata, dominou três línguas alem do português, que lhe permitiram traduzir importantes obras como o romance “Trabalhadores do Mar” de Victor Hugo e o conto “O Corvo” de Edgar Allan Poe.

Com quinze anos seu primeiro texto foi publicado em um jornal, apesar disso seu primeiro livro é lançado apenas em 1864, “Crisálidas”. Foi após ter se aposentado que Machado escreveu grande parte de sua obra. As obras mais importantes do autor são: “Dom Casmurro” (1900), “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) e “Quincas Borba” (1892).

O conto “A Cartomante” faz parte dos livros “Varias Historias” e “Contos: Uma Antologia”. Um dos motivos que torna a leitura deste texto em especial muito interessante é o fato de ter sido escrito em 1884 e mesmo 124 anos depois tratar de um tema tão atual. O drama é vivido por Camilo: melhor amigo de Vilela e amante de Rita, esposa de Vilela.

O suspense criado é enorme e é capaz de fazer suas seis páginas de desenvolvimento parecerem dezenas até culminar em seu clímax e um descrente buscar os conselhos de uma cartomante. Machado torna o texto tão envolvente que impossibilita o leitor de não sentir a mistura de sentimentos de Camilo ou de não ler o conto até seu desfecho.

Para conferir o conto acesse http://www.releituras.com/machadodeassis_cartomante.asp e verás que mesmo que tivesse centenas de paginas lerias todo de uma só vez.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Natureza do Escorpião

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Um escorpião quer atravessar um rio, mas não sabe nadar. Pede carona a um sapo. Desconfiado, o sapo recusa-se a carregá-lo nas costas. O escorpião insiste. "Não posso", diz o sapo, "por que tu vais me picar". "Deixa de ser burro, se eu te picar, morremos afogados os dois". O argumento faz o sapo ceder. No meio do rio, ao sentir o fogo do veneno nas costas, o sapo, perplexo, ainda tem tempo de perguntar por quê. "Não consegui resistir à minha natureza", explica o escorpião.
(2002, p.17-18)
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Dentre as tantas palavras possíveis de se utilizar para descrever O Escorpião da Sexta-feira, de Charles Kiefer, instigante com certeza é uma delas. Alguns livros nos causam tédio, outros nos fazem ficar pensando no enredo por cinco dias ou mais depois de ler a última página. Esta obra é daquele tipo que nos leva a ficar de olhos arregalados durante toda a leitura, e quando chegamos ao final da história, permanecemos pensando no desfecho por dias!
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O início da história se dá em uma noite comum de Porto Alegre. Nela, Antônio – nosso protagonista, busca uma acompanhante. A companhia encontrada é uma prostituta chamada Maura que, com pouco esforço, ele consegue levá-la para casa. Para quê? Ora, caro leitor, use sua imaginação!
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Se você pensou “naquilo”, errou.
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Charles Kiefer é um escritor gaúcho natural de Três de Maio. Tem trinta livros editados e ganhou por três vezes o Prêmio Jabuti de Literatura, entre outros. Mesmo com títulos lançados por editoras regionais, obteve, no total, mais de 300 mil volumes vendidos. A reconhecida qualidade literária de seu trabalho em romances, contos , ensaio literários e poesia, levou a Editora Record a contratar a reedição de todos os seus livros, a partir de 2006. Há vinte anos dirige uma prestigiosa oficina literária, sendo o formador de uma leva de bons autores do Rio Grande do Sul.
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Sua obra tem sido adaptada para o cinema e para o teatro, como O chapéu, filme dirigido por Paulo Nascimento; Dedos de pianista, dirigido por Paulo Nascimento; Escorpião da sexta-feira, peça de teatro, e Quem faz gemer a terra, peça de teatro. Esta última já foi encenada mais de setenta vezes, inclusive na França, Suíça e Polônia. Tem livros editados na França e em Portugal. (dados extraídos de http://pt.wikipedia.org/wiki/Charles_Kiefer).
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-Tu não gostas de mulher?, Maura indaga. Desiste de retorcer-se a minha frente.
-Claro que gosto, respondo.
-Então, o que eu preciso fazer pra te deixar de pau duro?, pergunta, subitamente cansada. Volta a sentar-se ao meu lado, no sofá.
-Um pouco mais de perversão, eu digo.
-Não entendi, ela responde e enxuga o suor da testa.
-Me deixa eu te amarrar, deixa?
-Vamos ver. Se eu me apaixonar por ti, deixo.
-Luísa gostava de ser amarrada, vendada, sadomizada.
-É que ela te amava.
(...)
-Quem é Luísa?
-A primeira, eu digo. Deita aqui. (2002, p. 29-30)

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É a partir deste diálogo com Maura, caro leitor, que Antônio, um sujeito frio, calculista e aficionado por escorpiões começa a contar a sua história. O início dela é parecido com o de muitas pessoas. Foi para a cidade grande, vivia sozinho, sustentava-se com o seu trabalho. Era um sujeito inteligentíssimo, com gostos excêntricos: condimentos, músicas antigas e, em especial, escorpiões. Certa vez conheceu Luísa, a mulher que o arrastou num turbilhão de desejo e paixão.
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Luísa era uma pessoa que alternava estados de euforia e depressão com "a rapidez dos ataques dos escorpiões". De acordo com Antônio, foi ela quem o fez abandonar horas de estudo e meditação por paixões altamente instáveis. Começaram a namorar.
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A personalidade de Antônio era representada metaforicamente pelo seu primeiro escorpião, chamado Gandhi, que era um aracnídeo manso e não venenoso. Luísa odiava escorpiões, a ponto de em um momento de loucura esmagar o coitado. Esse evento, somado a turbulentas paixões que atormentavam a alma de Antônio, em especial os ciúmes, já que Luísa era uma pessoa, digamos, “liberal por demás”, fizeram com que o nosso protagonista canalizasse todos seus sentimentos de forma assustadora. Essa segunda fase de Antônio pode ser identificada através do seu segundo escorpião, chamado Gengis Khan, que era um escorpião extremamente venenoso e agressivo.
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A história é contada por Antônio, e nela Luísa é o “monstro” responsável por tudo de ruim que passa a acontecer na sua vida. O sofrimento torna-se tão grande a ponto de servir de desculpa para as ações que se seguem. Não, caro leitor, Antônio não se suicida por amor! Este seria um conto romântico se esse fosse o desfecho. Ao invés de morrer por amor, Antônio começa a matar por prazer. Luísa, o estopim, foi sua primeira vítima.
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Apanhei um frasco de óleo de amêndoas no armário, encharquei as mãos e passei-as nos seus ombros, nas suas costas, nas suas nádegas.
-Ai, assim tu me deixas excitada.
Ignorei a provocação e continuei a massagem lustral, como se a preparasse para o sacrifício. Esfreguei-a por longo tempo, até que a pele absorvesse a fina camada de gordura vegetal. Depois, tomei-a nos braços. Era leve como uma criança. Carreguei-a até o quarto, escolhi um conjunto de calcinha e sutiã pretos, meias de nylon e cinta-liga, e o vestido de cetim azul.
-Foge de mim – implorei.
-Agora, que estás tão querido?
Luísa confundia a premeditação paciente com carinho, ternura. O escorpião, antes do ataque, aquieta-se, distende os pedipalpos, abaixa a cauda, mimetiza-se com o ambiente, para que o inseto não tenha a menor chance de reação. (2002, 113-114)
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Luísa, no caso, era o inseto.
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Em síntese, O Escorpião da Sexta-feira é um livro de leitura agradável, com linguagem simples, possuidor de personagens que, no ápice de suas “loucuras”, tornam-se extremamente atraentes, por serem influenciados por causas bem cotidianas, o que – em certos momentos – faz-nos parecer “Antônios” ou “Luísas”. Recomendo o livro.
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Vocês devem estar se perguntando o que aconteceu com Maura, a prostituta para a qual Antônio contou toda sua história. Bem... os escorpiões são calmos, metódicos e pragmáticos. Durante o dia, deprimidos pelo excesso de luz, dormitam escondidos em pequenos buracos, debaixo de pedras, sob a casca de madeiras apodrecidas. À noite, revitalizados e famintos, partem em busca de insetos, aranhas e outros escorpiões. Atacam sempre da mesma forma... (...) (2002, p. 13) Antônio também, é de sua natureza.
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Bibliografia utilizada:
KIEFER, Charles. O Escorpião da Sexta-feira. Porto Alegre: Mercado Aberto, 2002.
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Charles Kiefer:
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Comentário de Volnyr Santos sobre o Escorpião da Sexta-feira:

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Capitães da areia

Em 1932, Jorge Amado publica “Cacau”, livro que se esgota em apenas um mês. Ainda no mesmo se torna editor chefe da Rio Magazine e se casa em Sergipe com Matilde Garcia Rosa. Em 1934 lança o livro “Suor”, em 1935 “Jubiabá” e em 1936 “Mar Morto” quando é preso pela primeira vez, acusado de ter participado da “Intentona Comunitas” mas logo sai da prisão. Em 1937 atua no filme “Itapuã” de Ruy Santos interpretando um pescador.

Jorge Amado então viaja pela América Latina e Estados Unidos e enquanto está no exterior, o livro “Capitães da areia” é publicado aqui no Brasil. Logo que retorna toma conhecimento do golpe de Getúlio Vargas e então foge para Manaus, mas logo é preso em Porto Alegre, de lá é levado para Brasília e então Salvador onde fica confinado por um curto tempo. Seus livros foram considerados subversivos são queimados por ordem da Sexta Região militar.

Em 1939 é editor chefe das revistas Dom Casmurro e Diretrizes, dois anos depois lança “ABC de Carlos Prestes” em Buenos Aires e quando volta ao Brasil é novamente preso e solto. Em 1944 publica “O Amor de Castro Alves” e “São Jorge de Ilhéus” e se divorcia. No próximo ano Jorge foi novamente preso e liberto por razões políticas, elege-se deputado federal e escreve “Terras do Sem Fim”.

No ano de 1946 lança os livros “Seara Vermelha” e “Homens e coisas do Partido Comunista”, após dois anos seu mandato de deputado federal é cassado, seus livros novamente considerados subversivos e então viaja para Paris e escreve “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá” para um de seus filhos.

Em 1950 é expulso da França por motivos políticos e se muda para Tchecoslováquia. Bom, aqui foram mais dezoito atribulados anos deste grande autor brasileiro conhecido e premiado pelo mundo inteiro. Para conhecer um pouco sobre sua a vida entre seus amigos leia a crônica de João Ubaldo Ribeiro em http://www.releituras.com/jorgeamado_bio.asp.

Finalmente vamos Saborear nosso prato especial de hoje. O livro Capitães de areia conta à história de meninos de rua de Salvador, primeiramente é apresentada às vidas dos integrantes do grupo separadamente. Pedro Bala é o líder; João Grande, o segundo no comando; Volta seca, afiliado de Lampião; Professor, que lia muito bem; Gato, que tinha fama de conquistador e Pirulito, religioso fervoroso são os meninos mais citados do grupo que tinha quase cem participantes.

Após quase ser estuprada pelos capitães de areia Dora acaba a participar do grupo e é com sua morte que os meninos deixam de viverem juntos e cada um segue seu caminho. Pedro Bala abandona o grupo e se torna um revolucionário comunista; João Grande se forma marinheiro; Volta Seca mata mais de sessenta soldados antes de ser condenado sendo cangaceiro; Professor vai morar no Rio de Janeiro onde faz grande sucesso como pintor; Gato abandona sua amante e viaja para ilhéus e pirulito se torna Frade.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

O Rapaz que não cantou de Galo.

Joaquim Maria Machado de Assis
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Ah, doces sentimentos que afloram no coração de um jovem de 17 anos! É nessa idade que muitos “projetos de varões” começam a descobrir algumas novidades. Os agouros do coração, os hormônios desenfreados que catalisam paixões profundas e desesperadoras, a ingenuidade fútil que os leva a parecerem bobos diante de outras pessoas, são algumas características dos garotos dessa idade... Claro que essas características perduram – modificadas talvez – em idades mais avançadas, mas o legal do alvorecer da vida é a sensação de novidade.
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É uma dessas sensações que experimentou o nosso “herói”, o jovem Nogueira, ao esperar, nos anos 1861 ou 1862, para ir à Missa do Galo que ocorreria na corte do Rio de Janeiro.

Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite. (...) ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição (O Sr.Meneses estava fora de casa. Interessante, não?)

De acordo com a descrição do nosso jovem Nogueira, a dona Conceição era descrita como “uma pessoa simpática”; mesmo assim, transmitia sempre um ar de passividade, como se não sofresse e nem fruísse muito. Agora imaginem a cena: o garoto de 17 anos, à noite, na espera da missa do galo, sentado à frente de uma mesa, sozinho, lendo à luz de lampião, na sala de um casarão no século XIX, quando aparece a dona da casa para conversar, envolta em um roupão, e o marido fora. Para o garoto isso era, no mínimo dos mínimos, estranho.

Sobre a cadeira (...) pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços (...) A vista não era nova para mim, posto também não fossem comum; naquele momento, porém a impressão que tive foi grande (...) A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro.

Não é difícil imaginar o que poderia estar passando na cabeça do pequeno Nogueira. Garoto de hoje ou do século XIX, ainda era garoto. O espanto aumentou quando Conceição decidiu sentar-se ao seu lado.

Em uma dessas vezes creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar (os olhos), não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado.

Lembrem os leitores que o conto A Missa do Galo foi escrito pelo estupidamente brilhante contista, dramaturgo, poeta e romancista Joaquim Maria Machado de Assis, no século XIX. Os contos Machadianos possuem uma característica interessante, que é o do fim inesperado. Durante o conto são “lançados” indícios que permitem ao leitor formular diferentes hipóteses. A certa altura pode-se pensar que dona Conceição não estivesse interessada no garoto, ou talvez sim, já que, de acordo com o que Nogueira diz, ela em alguns momentos sai do seu estado de indiferença habitual, mostrando interesse no diálogo (imaginem só o que deveria ser mostrar os braços para um garoto no século XIX!); além, é claro, de sentar-se ao lado dele, de fitar-lhe com olhos penetrantes (lembrem ainda que o marido, que possuía amante conhecida, não estava em casa).
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O único personagem previsível na história é Nogueira. Durante toda a Missa do Galo a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez entre ele e o padre. Obviamente que se esse conto fosse transposto para os dias atuais não seria bem na "missa" que dona Conceição seria lembrada pelo nosso varão, mas isso já seria outra história.


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Biografia de Machado de Assis: